A Microdose que não foi micro

No último dia 17/06/16 estava fazendo homeoffice. Decidi fazer uma microdose de san pedro. Comi cerca de dez pedaços inteiros e secos de cacto. Havia inclusive o miolo, casca e alguns poucos espinhos no material.
Na noite anterior não havia jantado e estava em relativo jejum até às 11h, horário que ingeri os espinhudos. Mastiguei calmamente, e engoli aos poucos com suco de laranja.
Meu objetivo era apenas dar uma energizada, um up no corpo e mente para trabalhar.
Depois de aproximadamente meia hora ou mais, percebi que a dose não tinha sido assim tão micro. Havia uma desconexão ou fragmentação de sentimentos físicos e disposição, e também uma tendência a imersão no “nada”. Mas sobretudo havia muita fraqueza. Provavelmente devido à condição de estar há muito tempo sem comer.
O cacto gosta de corpos fortes e saudáveis para se expressar.
Decidi fazer um rango. Apesar de não ser acostumado a cozinhar, o processo acontecia muito naturalmente, sem travas psicológicas de “não sei fazer isso ou aquilo”. Mas a fraqueza física estava sempre constante.
Comi muita comida enquanto liguei a tv no canal do senado. Estava a maior treta ainda relacionada ao impeachment da Dilma. Era um pouco engraçado.
Depois de comer deu uma preguiça nervosa. Desliguei a TV e fiquei sentado de olhos fechados. Havia uma imersão em um nada infinito, onde o tempo se perdia. O corpo ficava imóvel sem esforço. A única coisa que incomodava às vezes era um frio que ia e vinha, se alternando com calor. O dia estava frio de verdade.
Em algum momento decidi ir me deitar embaixo das cobertas, para lá ficar com os olhos fechados mirando o que o cacto queria me mostrar. E me vi dentro de um cacto, que parecia um prédio, cheio de cômodos e pessoas, como se fossem apartamentos. Vi ainda um interior de uma serpente vermelha e uma luz que vinha de fora dela, mas atravessava sua pele e iluminava meu caminho por dentro dela, que se tornava uma espécie de túnel vivo. Fui ainda em uma caverna, onde havia grupos de pessoas, principalmente mulheres, e fogueiras. Eles estavam lá reunidos. E saindo um pouco dessa caverna via outras mulheres, dessa vez loiras, talvez européias, em lugares que pareciam o cerrado brasileiro, com pedras e vegetação rasteira. Essas mulheres estavam procurando cactos na região. Também via sangue e sacrifícios. E havia uma presença de um espírito gigantesco.
Acho que era o cacto mostrando como eram os povos antigos, e sua relação com eles, na qual os devorava, aceitava seus sacrifícios e reinava como uma divindade.
Foi um pouco pesado, não muito agradável, mas quando saí dessa onda de visões cheias de sangue, terror, sacrifício, fogo e morte, me senti renovado, tranquilo, confiante, em paz.
Falei com alguns amigos no whatsapp, a respeito da minha experiência, e tentei trabalhar um pouco, em um app que tenho codificado.
O trabalho fluiu bem, a concentração estava ok. A visão um pouco ruim. Parece que a mescalina me prejudica bastante nesse ponto. Em uma experiência passada, do meio para o final dos efeitos, senti os olhos bem prejudicados, como se estivessem dilatados.
E os efeitos mais intensos foram diminuindo pela noite, até sobrar apenas uma tranquilidade e sentimento de gratidão para com os espinhudos.
Me impressionou a força do que deveria ser apenas uma microdose, e me fez respeitar ainda mais essa medicina incrível!

Os Sete Princípios Herméticos

CAPÍTULO 2 DO CAIBALION

I. O Principio de Mentalismo

“O TODO é MENTE; o Universo é Mental.” – O CAIBALION –

Este Princípio contém a verdade que Tudo é Mente. Explica que O TODO (que,é a Realidade substancial que se oculta em todas as manifestações e aparências que conhecemos sob o nome de Universo Material, Fenômenos da Vida, Matéria, Energia, numa palavra, sob tudo o que tem aparência aos nossos sentidos materiais) é ESPÍRITO, é INCOGNOSCíVEL e INDÈFINFVEL em si mesmo, mas pode ser considerado como uma MENTE VIVENTE INFINITA e UNIVERSAL. Ensina também que todo o mundo fenomenal ou universo é simplesmente uma Criação Mental do TODO, sujeita às Leis das Coisas criadas, e que o universo, como um todo, em suas partes ou unidades, tem sua existência na mente do TODO, em cuja Mente vivemos, movemos e temos a nossa existência. Este Princípio, estabelecendo a Natureza Mental do Universo, explica todos os fenômenos mentais e psíquicos que ocupam grande parte da atenção pública, e que, sem tal explicação, seriam ininteligíveis e desafiariam o exame científico.

A compreensão deste Princípio hermético do Mentalismo habilita o indivíduo a abarcar prontamente as leis do Universo Mental e a aplicar o mesmo Princípio para a sua felicidade e adiantamento. O estudante Hermetista ainda não sabe aplicar inteligentemente a grande Lei Mental, apesar de empregá-la de maneira casual.

Com a Chave-Mestra em seu poder, o estudante poderá abrir as diversas portas do templo psíquico e mental do conhecimento e entrar por elas livre e inteligentemente. Este Princípio explica a verdadeira natureza da Força, da Energia e da Matéria, como e por que todas elas são subordinadas ao Domínio da Mente. Um velho Mestre hermético escreveu, há muito tempo: “Aquele que compreende a verdade da Natureza Mental do Universo está bem avançado no Caminho do Domínio.” E estas palavras são tão verdadeiras hoje, como no tempo em que foram escritas. Sem esta Chave-Mestra, o Domínio é impossível, e o estudante baterá em vão nas diversas portas do Templo.

II. O Principio de Correspondência

“O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.” – O CAIBALION –

Este Princípio contém a verdade que existe uma correspondência entre as leis e os fenômenos dos diversos planos da Existência e da Vida. O velho axioma hermético diz estas palavras: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.’ A compreensão deste Princípio dá ao homem os meios de explicar muitos paradoxos obscuros e segredos da Natureza. Existem planos fora dos nossos conhecimentos, mas quando lhes aplicamos o Princípio de Correspondência chegamos a compreender muita coisa que de outro modo nos seria impossível compreender. Este Princípio é de aplicação e manifestação universal nos diversos planos do universo material, mental e espiritual: é uma Lei Universal.

Os antigos Hermetistas consideravam este Princípio como um dos mais importantes instrumentos mentais, por meio dos quais o homem pode ver além dos obstáculos que encobrem à vista o Desconhecido. O seu uso constante rasgava aos poucos o véu de Isis e um vislumbre da face da deusa podia ser percebido. Justamente do mesmo modo que o conhecimento dos Princípios da Geometria habilita o homem, enquanto estiver no seu observatório, a medir sóis longínquos, assim também o conhecimento do Princípio de Correspondência habilita o Homem a raciocinar inteligentemente,do Conhecido ao Desconhecido.

Estudando a mônada, ele chega a compreender o arcanjo.

III. O Princípio de Vibração

“Nada está parado; tudo se move;tudo vibra.” – O CAIBALION –

Este Princípio encerra a verdade que tudo está em movimento: tudo vibra; nada está parado; fato que a Ciência moderna observa, e que cada nova descoberta científica tende a confirmar. E contudo este Princípio hermético foi enunciado há milhares de anos pelos Mestres do antigo Egito.

Este Princípio explica que as diferenças entre as diversas manifestações de Matéria, Energia, Mente e Espírito, resultam das ordens variáveis de Vibração. Desde O TODO, que é Puro Espírito, até a forma mais grosseira da Matéria, tudo está em vibração; quanto mais elevada for a vibração, tanto mais elevada será a posição na escala. A vibração do Espírito é de uma intensidade e rapidez tão infinitas que praticamente ele está parado, como uma roda que se move muito rapidamente parece estar parada.

Na extremidade inferior da escala estão as grosseiras formas da matéria, cujas vibrações são tão vagarosas que parecem estar paradas. Entre estes pólos existem milhões e milhões de graus diferentes de vibração. Desde o corpúsculo e o elétron, desde o átomo e a molécula, até os mundos e universos, tudo está em movimento vibratório. Isto é verdade nos planos da energia e da força (que também variam em graus de vibração); nos planos mentais (cujos estados dependem das vibrações), e também nos planos espirituais.

O conhecimento deste Princípio,’ com as fórmulas apropriadas, permite ao estudante Hermetista conhecer as suas vibrações mentais, assim como também a dos outros. Só os Mestres podem aplicar este Princípio para a conquista dos Fenômenos Naturais, por diversos meios. “Aquele que compreende o Princípio de vibração alcançou o cetro do poder”, diz um escritor antigo.

IV. O Principio de Polaridade

“Tudo é Duplo; tudo tem pólos; tudo tem o seu oposto;o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.” – O CAIBALION –

Este Princípio encerra a verdade: tudo é Duplo; tudo tem dois pólos; tudo tem o seu oposto, que formava um velho axioma hermético. Ele explica os velhos paradoxos, que deixaram muitos homens perplexos, e que foram estabelecidos assim: A Tese e a Antítese são idênticas em natureza, mas diferentes em grau; os opostos são a mesma coisa, diferindo somente em grau; os pares de opostos podem ser reconciliados; os extremos se tocam; tudo existe e não existe ao mesmo tempo; todas as verdades são meias-verdades; toda verdade é meiofalsa; há dois lados em tudo, etc., etc.

Ele explica que em tudo há dois pólos ou aspectos opostos, e que os opostos são simplesmente os dois extremos da mesma coisa, consistindo a diferença em variação de graus. Por exemplo: o Calor e o Frio, ainda que sejam; opostos, são a mesma coisa, e a diferença que há entre eles consiste simplesmente na variação de graus dessa mesma coisa.

Olhai para o vosso termômetro e vede se podereis descobrir onde termina o calar e começa o frio! Não há coisa de calor absoluto ou de frio absoluto; os dois termos calor e frio indicam somente a variação de grau da mesma coisa, e que essa mesma coisa que se manifesta como calor e frio nada mais é que uma forma, variedade e ordem de Vibração.

Assim o calor e o frio são unicamente os dois pólos daquilo que chamamos Calor; e os fenômenos que daí decorrem são manifestações do Princípio de Polaridade. O mesmo Princípio se manifesta no caso da Luz e da Obscuridade, que são a mesma coisa, consistindo a diferença simplesmente nas variações de graus entre os dois pólos do fenômeno Onde cessa a obscuridade e começa a luz? Qual é a diferença entre o grande e o pequeno? Entre o forte e o fraco? Entre o branco e o preto? Entre o perspicaz e o néscio? Entre o alto e o baixo? Entre o positivo e o negativo.

O Princípio de Polaridade explica estes paradoxos e nenhum outro Princípio pode excedê-lo. O mesmo Princípio opera no Plano mental. Permitiu-nos tomar um exemplo extremo: o do Amor e o ódio, dois estados mentais em aparência totalmente diferentes. E, apesar disso, existem graus de ódio e graus de Amor, e um ponto médio em que usamos dos termos Igual ou Desigual, que se encobrem mutuamente de modo tão gradual que às vezes temos dificuldades em conhecer o que nos é igual, desigual ou nem um nem outro. E todos são simplesmente graus da mesma coisa, como compreendereis se meditardes um momento. E mais do que isto (coisa que os Hermetistas consideram de máxima importância), é possível mudar as vibrações de ódio em vibrações de Amor, na própria mente de cada um de nós e nas mentes dos outros.

Muitos de vós, que ledes estas linhas, tiveram experiências pessoais da transformação do Amor em ódio ou do inverso, quer isso se desse com eles mesmos, quer com outros. Podeis pois tornar possível a sua realização, exercitando o uso da vossa Vontade por meio das fórmulas herméticas. Deus e o Diabo, são, pois, os pólos da mesma coisa, e o Hermetista entende a arte de transmutar o Diabo em Deus, por meio da aplicação do Princípio de Polaridade.

Em resumo, a Arte de Polaridade fica sendo uma fase da Alquimia Mental, conhecida e praticada pelos antigos e modernos Mestres Hermetistas. O conhecimento do Princípio habilitará o discípulo a mudar a sua própria Polaridade, assim como a dos outros, se ele consagrar o tempo e o estudo necessário para obter o domínio da arte.

V. O Principio de Ritmo

“Tudo tem fluxo e refluxo; tudo ,em suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.” – O CAIBALION –

Este Princípio contém a verdade que em tudo se manifesta um movimento para diante e para trás, um fluxo e refluxo, um movimento de atração e repulsão, um movimento semelhante ao do pêndulo, uma maré enchente e uma maré vazante, uma maré -alta e uma maré baixa, entre os dois pólos, que existem, conforme o Princípio de Polaridade de que tratamos há pouco. Existe sempre uma ação e uma reação, uma marcha e uma retirada, uma subida e uma descida. Isto acontece nas coisas do Universo, nos sóis, nos mundos, nos homens, nos animais, na mente, na energia e na matéria.

Esta lei é manifesta na criação e destruição dos mundos, na elevação e na queda das nações, na vida de todas as coisas, e finalmente nos estados mentais do Homem (e é com estes últimos que os Hermetistas reconhecem a compreensão do Princípio mais importante). Os Hermetistas compreenderam este Princípio, reconhecendo a sua aplicação universal, e descobriram também certos meios de dominar os seus efeitos no próprio ente com o emprego de fórmulas e métodos apropriados. Eles aplicam a Lei mental de Neutralização. Eles não podem anular o Princípio ou impedir as suas operações, mas aprenderam como se escapa dos seus efeitos na própria pessoa, até um certo grau que depende do Domínio deste Princípio. Aprenderam como empregá-lo, em vez de serem empregados por ele. Neste e noutros métodos consiste a Arte dos Hermetistas. O Mestre dos Hermetistas polarizasse até o ponto em que desejar, e então neutraliza a Oscilação Rítmica pendular que tenderia a arrastá-lo ao outro pólo.

Todos os indivíduos que atingiram qualquer grau de Domínio próprio executam isto até um certo grau, mais ou menos inconscientemente, mas o Mestre o faz conscientemente e com o uso da sua Vontade, atingindo um grau de Equilíbrio e Firmeza mental quase impossível de ser acreditado pelas massas populares que vão para diante e para trás como um pêndulo. Este Princípio e o da Polaridade foram estudados secretamente pelos Hermetistas, e os métodos de impedi-los, neutralizá-los e empregá-los formam uma parte importante da Alquimia Mental do Hermetismo.

VI. O Principio de Causa e Efeito

“Toda a Causa tem seu Efeito, todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei.” – O CAIBALION –

Este princípio contém a verdade que há uma Causa para todo o Efeito e um Efeito para toda a Causa. Explica que: Tudo acontece de acordo com a Lei, nada acontece sem razão, não há coisa que seja casual; que, no entanto, existem vários planos de Causa e Efeito, os planos superiores dominando os planos inferiores, nada podendo escapar completamente da Lei.

Os Hermetistas conhecem a arte e os métodos de elevar-se do plano ordinário de Causa e Efeito, a um certo grau, e por meio da elevação mental a um plano superior tomam-se Causadores em vez de Efeitos.

As massas do povo são levadas para a frente; os desejos e as vontades dos outros são mais fortes que as vontades delas; a hereditariedade, a sugestão e outras causas exteriores movem-nas como se fossem peões no tabuleiro de xadrez da Vida. Mas os Mestres, elevando-se ao plano superior, dominam o seu gênio. cara ‘ter, suas qualidades, poderes, tão bem como os que o cercam e tornam-se Motores em vez de peões. Eles ajudam a jogar a criação, quer física, quer mental ou espiritual, é possível sem partida da vida, em vez de serem jogados e movidos por outras vontades e influências. Empregam o Princípio em lugar de serem seus instrumentos. Os Mestres obedecem à Causalidade do plano superior, mas ajudam a governar o nosso plano.

Neste preceito está condensado um tesouro do Conhecimento hermético: aprenda-o quem quiser.

VII. O Principio de Gênero

“O Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos.” – O CAIBALION –

Este princípio encerra a verdade que o gênero é manifestado em tudo; que o princípio masculino e o princípio feminino sempre estão em ação. Isto é certo não só no Plano físico, mas também nos Planos mental e espiritual. No Plano físico este Princípio se manifesta como sexo, nos planos superiores toma formas superiores, mas é sempre o mesmo Princípio.

Nenhuma criação, quer física, quer mental ou espiritual, é possível sem este Princípio, A compreensão das suas leis poderá esclarecer muitos assuntos que deixaram perplexas as mentes dos homens.

O Princípio de Gênero opera sempre na direção da geração, regeneração e criação’.Todas as coisas e todas as pessoas contêm em si os dois Elementos deste grande Princípio.

Todas as coisas machos têm também o Elemento feminino; todas as coisas fêmeas têm o Elemento masculino. Se compreenderdes a filosofia da Criação, Geração e Regeneração mentais, podereis estudar e compreender este Princípio hermético. Ele contém a solução de muitos mistérios da Vida. Nós vos advertimos que este Princípio não tem relação alguma com as teorias e práticas luxuriosas, perniciosas e degradantes, que têm títulos empolgantes e fantásticos, e que nada mais são do que a prostituição do grande princípio natural de Gênero.

Tais teorias, baseadas nas antigas formas infamantes do Falicismo, tendem a arruinar a mente, o corpo e a alma; e a Filosofia hermética sempre publicou notas severas contra estes preceitos que tendem à luxúria, depravação e perversão dos princípios do Natureza.

Se desejais tais ensinamentos podeis procurá-los noutra parte: o Hermetismo nada contém nestas linhas que sirva para vás. Para aquele que é puro, todas as coisas são puras; para os vis, todas as coisas são vis e baixas

Análise de Sonhos

Técnica de Análise de Sonhos

Os sonhos tentam nos fazer consciente de algo relevante. Acho que o sentido de existir é tornar-se consciente. Somos um experimento de Deus em sua tentativa de se conhecer a si próprio. Imagina um punhado de átomos tentando entender um punhado de átomos. É o universo se tornando consciente. E nós fazemos parte desse processo com nossos cérebros de um quilo e meio.

Imagina um homem que se contorce até enfiar sua cabeça em seu ânus, e vai subindo, passando pelas tripas, estômago, dá um olá para os pulmões, sobe a garganta até sua cabeça sair pela sua boca. Essa é a descida do espírito na matéria para tornar-se consciente! Encontra muita merda pela frente, mas ao final chega à luz.

Os sonhos normalmente são nascidos de nosso centro regulador e entendo que seu objetivo seja nos conduzir ao equilíbrio psíquico, além de nos fazer conscientes de aspectos que até então estão ocultos do nosso entendimento.

A questão é que a linguagem que esse núcleo se expressa é complexa e simbólica. Ela vem de uma parte ancestral, que ainda tem contato com as nossas coisas mais essenciais, espirituais e instintivas. Só que não gosta muito da linearidade da nossa linguagem que é toda certinha. Gosta de símbolos que possuem uma força e profundidade muito maior de significado. Um único símbolo pode ter mais informação do que um livro inteiro, porque seu interior irradia significado. A linguagem simbólica é muito mais eficiente do que um inglês ou português, e tudo na natureza busca o máximo de resultado com o mínimo de energia. Acho que é por isso que sonhamos com símbolos. As informações são criptografadas e compactadas.

Entendo que temos sonhos espirituais, sonhos premonitórios, sonhos compensadores e ruídos fisiológicos.

Sonhos espirituais: a verdade é que são raros. Temos a tendência de acreditar que todos nossos sonhos são espirituais, mas a verdade é que eles são raros. São mais coloridos, mais impactantes e você acorda com a certeza de que aquilo foi espiritual. Eu particularmente tive uns 3 ou 4 sonhos assim. Considero que sonhos lúcidos e viagens astrais são espirituais de alguma forma.

Sonhos premonitórios: são mais comuns que os sonhos espirituais e acontecem no limiar entre sua consciência individual e a consciência coletiva. Muitas vezes sua mente liga os pontinhos por si própria e conclui coisas que a mente consciente não sacou ainda. Outras vezes, de alguma forma misteriosa, acessa arquivos da Internet mental em que estamos conectados.

Sonhos compensadores: a grande maioria dos sonhos são compensadores. Você está triste e sonha coisas felizes. Você está olhando o mundo com uma perspectiva muito detalhista e o sonho te faz subir em elevadores para “ver as coisas mais de cima”. Você está dominado pelo desejo e sonha com uma fera te devorando. Nossa mente tenta sempre nos levar para nosso centro de gravidade psíquico e faz isso compensando o muito com o pouco, o alto pelo baixo, o sujo pelo limpo, enfim…

Ruídos fisiológicos: corpo e mente são um só. Você come feijoada onze horas da noite e têm pesadelos. Dorme sem mijar e sonha que procura um banheiro. Tem uma doença desconhecida e sonha com algo sobre isso. Não se pode descartar essa possibilidade em nenhum sonho: de tratar-se de um reflexo de algo que está acontecendo no seu corpo.

A partir de uns livros que li e estudos que fiz, tinha uma técnica pra analisar sonhos. Essa técnica só serve para os sonhos compensatórios, que entendo que são o que mais sonhamos.

1 – registrar sonho: isso é o mais importante. O ideal é escrever sempre no presente “estou em uma escada e vejo uma mulher acenando”. Escrever no presente ajuda a se lembrar e se colocar dentro do sonho. O ato de registrar tbem te manda uma mensagem para seu inconsciente de que deseja estabelecer uma comunicação, o que te faz sonhar mais e melhora sua memória dos sonhos. Quanto mais vc lembra dos sonhos, mais consegue lembrar. Teve época que lembrava 4 ou 5 sonhos todo dia. É só praticar que dá. Esse exercício tbem dá uma melhorada geral na memória. Sempre dê um título para cada sonho e faça os registros de forma individual. Às vezes vc tem vários sonhos na noite, cada um tratando de um assunto.

2 – faça uma “planta” de todo o ambiente. Não precisa desenhar tudo certinho, mas ter um mapa do ambiente onde se desenvolve o sonho pode te fazer consciente de informações interessantes: certas coisas quando acontecem do seu lado direito tem um significado, quando acontecem do lado esquerdo tem outro. Em geral a direita representa o que é iluminado, consciente, correto, e esquerda o que é sombrio, inconsciente e torto. Uma fera do lado direito pode representar um instinto sendo domesticado, enquanto do lado esquerdo pode ser um impulso inconsciente. O que está acima tbem carrega todo significado de céu, fora de alcance, superior, e o que está abaixo tem o significado do que é interior, da terra, realizado. Com o mapa do sonho tbem vc pode analisar o sentido das coisas, se vc sobe no ambiente, depois vai para esquerda, direita, etc. Tudo isso te conta uma informação. Todo simbolismo das quatro direções se aplica a esse estudo. Tbem leve em conta a iluminação, se é dia, noite, claro, escuro… Em geral o que está claro está consciente, e o que está escuro ainda não foi compreendido (está inconsciente).

3 – coleta de símbolos: com o mapa do sonho você começa a colocar os símbolos que aparecem no sonho. Tudo é símbolo. Um animal, uma pessoa, uma frase, uma música. Distribua a aparição dos símbolos pelo seu mapa. Você pode registrar um sonho sem precisar contar uma história, apenas usando diagramas e palavras-chave!

4 – ego: quem é você no sonho? É um homem, uma mulher, uma criança, um velho. É você mesmo? Está se olhando de fora? Tudo isso pode revelar a perspectiva em que os fatos do sonho estão sendo vistos, e qual aspecto seu que está sendo tratado, ou mesmo se o sonho trata de alguma coisa do passado. Quem você é no sonho deve ser analisado para situar os símbolos dentro de um contexto.

5 – análise: agora que você tem todas as informações do sonho você pode começar e analisá-lo. Dicionários de símbolos podem ser bastante úteis. Livros de mitologia. Alquimia. Tem muitos dicionários de símbolos por aí, e alguns temas como fogo, água, nascimento, circulos, etc, tem um simbolismo muito rico. Vale a pena confrontar os símbolos junto a esses tipos de dicionários. Só não confunda dicionário de símbolos com dicionário de sonhos! Dicionários de sonhos são bobagem!

6 – conclusão: com a análise normalmente você vai chegar a uma conclusão. E quando o entendimento do sonho for realmente alcançado você vai saber. Vai ter um “plim” na sua cabeça. Alguma voz na sua cabeça vai gritar “BINGO”. E se essa conclusão não chegar, tenha paciência. Alguns sonhos levam anos para serem entendidos. E se for algo realmente importante, seu núcleo sonhador vai tratar de sonhar de novo com alguma coisa parecida. Se um mesmo sonho é sonhado mais de uma vez e se torna recorrente, então esse sonho está enfatizando alguma coisa para você. Dê prioridade a ele. Se tiver pesadelos também, e não for nenhuma questão fisiológica, dê mais atenção para o assunto. Sonhos recorrentes e pesadelos estão para a mente assim como a dor está para o corpo. São alertas ou pedidos de socorro.

Do mais, sugiro formar grupos de análise de sonhos, para discutir símbolos, significados. Esse tipo de grupo pode ser muito útil para quem estuda sonhos!

Livro: Insomnia

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Às vezes me pego na dúvida: sou eu que penso ou o pensamento que me usa para ser pensado?

Insomnia é um livro diferente. Trata-se de uma colagem de vozes e frases. Parágrafos curtos e diretos aqui, confusos e distorcidos ali.

Produzido em noites em claro, sob estados alterados de consciência, Insomnia foi concebido à caneta, e muito se perde pelo computador, que não resgata a tensão e expressão grafológica de um manuscrito.

Mas apesar disso, o trabalho foi organizado cuidadosamente com fim de manter suas quebras e bifurcações, que não sei se um dia serão compreendidas.

Não que tenha algo especial aqui oculto. Nada disso. É apenas um experimento. A tentativa de comunicar uma idéia sem esforço, porque há muito enfado em pensar, mas alegria em associar e sintetizar.

Esta é a criação de uma nova linguagem, consequência direta de uma necessidade insaciável de expressar o sopro dos ventos e ventanias, tempestades e visões.

CAPÍTULO 32 – O CACTO E O JAGUAR

Acredito que minha última experiência com San Pedro começou na noite anterior à ingestão do cacto, quando tive um sonho:

O SONHO

Neste sonho eu estava em um parque arqueológico andino. Talvez Chavin de Huantar. Este parque ficava em um lugar muito alto e haviam muitas estruturas de pedra. Uma estrutura em especial era uma espécie de túnel, mas aberto, com pedras formando um padrão cilíndrico. Algo como uma ponte gigantesca.

Eu ainda tinha uma máquina fotográfica e tentava tirar fotos do lugar, mas não conseguia foco ou ângulo. Em certo momento o celular estava com um filtro que tornava a imagem tosca, como uma TV antiga.

No parque via muitos cactos e trevos de quatro folhas. Alguns cactos estavam feios e machucados, e eu ficava a pensar se aqueles trevos representavam sorte para os povos antigos, assim como representam para nós. Então eu desci um barranco onde tinha muitos vasos desses trevos e cactos, e lá embaixo havia uma entrada para uma espécie de caverna. Logo que entrei fui preso em uma espécie de roleta e seria oferecido para uma fera. Tinha outras pessoas lá presas. Gritei e apareceu um homem velho e manco. Ele disse que abandonei nosso pai há muito tempo, e que não havia pedido desculpas. O velho parecia ser um irmão. Ele queria apenas que eu pedisse desculpa e não precisaria ser devorado.

Quando saí dali pensei em levar alguns vasos comigo.

* * *

A TRIP

Na noite do dia 17 para 18 iria para um show com minha esposa. Estávamos meio tretados, sem se falar e essas coisas, mas como os ingressos já estavam comprados iríamos mesmo assim. Eu na minha, ela na dela.

Então deixamos nossa filha na casa de nossa cunhada, onde passaria a noite, e seguimos para o show. Mas de última hora minha esposa perguntou se levaria umas Riveas para tomar, pois tínhamos combinado isso. Falei que não tinha preparado e que se quisesse tomar alguma coisa teria que ser cactos, pois não daria tempo de fazer uma extração apropriada, com água e tudo mais…

Comentei que tinha dois saquinhos de 25g de pachanoi seco e que provavelmente seria uma dose fraca, mas que podíamos tentar.

Então antes de seguir para o show passamos em casa, pegamos os cactos, garrafas de água, e pegamos a estrada. O show seria em um lugar a meia hora de distância, e como seria um trajeto curto fomos comendo os cactos no caminho. Dirigindo, comendo um pedaço, pagando pedágio, comendo outro pedaço. Pelos meus cálculos o efeito começaria a se pronunciar quando estivéssemos no lugar onde aconteceria o festival.

19h

San Pedro é bem amargo, mas não é um gosto exatamente repulsivo. Acho o gosto da Argyréia muito mais difícil. Seguimos comendo e tomando água para ajudar a descer. A água ficava doce quando combinada com os cactos. Quando chegamos na rua da casa de eventos onde aconteceria o show já sentia que estava começando a sentir os efeitos. Meus cálculos deram certo.

Minha esposa tomou metade de um saquinho. Eu tomei um inteiro. Devo ter tomado umas 25g e ela umas 15g. O que seria uma dose padrão para mim e uma dose fraca para ela.

Quando estávamos na rua eu abracei ela e seguimos para entrada, como se não houvesse qualquer desentendimento prévio entre nós. Alguém me falou uma vez que San Pedro começa a trabalhar sempre a partir do coração. Vai ver isso tenha tornado o processo de se entender muito simples, sem formalidades e explicações. Não que houvesse qualquer “doçura romântica”. Apenas um abraço e boas.

Entramos na casa de show e tocava uma tal de Barbara Ohana. Eu estava um pouco nauseado, e achava que a qualquer momento poderia ter que vomitar. Estávamos em uma área muito confortável, com sofás para sentar e isso ajudou a segurar a náusea e a tontura. Também tinha a impressão que se fechasse os olhos a náusea diminuía ou era esquecida. A cantora ficava lá dançando toda gostosona, mas eu não tinha o menor interesse. Apenas tentava segurar minha onda naquele comecinho de trip.

20h

De olhos fechados via dentes, e partes de corpos. Acho que nesse momento estava se unindo ao cacto, me tornando cacto, ou tornando o cacto humano. Então via dentes, ossos, partes de corpos, e partes de plantas, a geometria do cacto, sua viscosidade interior. Essa com certeza foi a fase de transição e tudo que isso implica: confusão, tontura, náusea…

A noite estava fria e eu estava sem blusa. Assim como no caso da náusea, fechar os olhos melhorava a sensação de frio, com visões verdes, amareladas e ensolaradas. Lembro em uma experiência anterior com San Pedro, também em uma noite fria, e nessa experiência via muitos cactos dançando sob um sol dourado que virava líquido e se derramava sobre eles. E dessa vez também via sulcos verdes sendo preenchidos por uma luz amarelada. Acho que é toda luz que o cacto recebe, que fica ali contida em sua medicina. E essas percepções me faziam entender o que sente um cacto sem sol. Fica ali quieto de olhos fechados, mas sem chance de se tornar o que é.

A sensação dos ossos no meu corpo também eram muito evidentes. Sentia cada osso e cada dente, em especial os dentes caninos. E eles ficavam verdes. E ossos eram as colunas do cacto, e os dentes seus espinhos.

Depois de algum tempo comecei a sentir a boca mole, os lábios macios, e a parte interna da barriga, pescoço, tudo isso parecia muito mole e frágil, enquanto a parte exterior, costas, braços, pernas, eram muito fortes, flexíveis, ágeis.

E lembrei de um cara que conhece muito bem San Pedro e dizia que quando tomava o cacto se tornava um lagarto. Nessa hora sentia como se eu também fosse um lagarto. Uma capacidade de deixar o corpo imóvel em qualquer posição sem que me incomodasse. Abraçado com minha esposa, como se estivesse em uma pedra esquentando o corpo gelado. Visão periférica muito desenvolvida. Sentia até meu rosto tomar forma de lagarto. Sempre esperto, arisco. Sempre à espreita.

21h30

Depois da Barbara Ohana começou a tocar Cidadão Instigado.

Sua estética cearense, seu logo de cor de areia e pontas triangulares, seguia a mesma vibração do cacto.

As luzes do show, suas guitarras psicodélicas, as canções demoradas, eram muito legais. Tenho acompanhado o trabalho deles faz tempo e achei muito legal a performance da banda no palco. Os jogos de luzes ficaram muito legais, muito louco mesmo. Eu alternava entre ficar com olhos abertos e fechados.

Com olhos fechados via quadrados se separando em triângulos, e percebi que é assim que o cacto te mostra o mundo: tudo sem palavras e ao mesmo tempo evidente. Como geometria, como matemática. Como combinações de triângulos que formam todas as mandalas, todas as formas, todas as dimensões. Algumas visões eram como quadros de Escher, com escadas sendo construídas, e torres, e blocos, como muralhas incas e seus blocos quadradinhos se encaixando.

A geometria de San Pedro é incrível! E começa no desenho do próprio cacto, com suas 4, 7, 8, 9, 12 colunas, sua simetria, suas proporções…

Outras vezes fechava os olhos e me via em um espaço onde não havia “em pé”, “sentado” ou “deitado”. Tudo flutuava no espaço com cores infantis de contrastes fortes. Via uma cozinha com muitos tons de vermelho, e todos elementos ficavam suspensos, em um mundo sem gravidade.

22h30

Quando Cidadão Instigado terminou já estava entrando no auge da experiência. San Pedro age lentamente. É uma experiência viscosa, como o próprio interior do cacto. Te deixa consciente de tudo que é duro no seu corpo. Dentes, ossos, músculos. E nessa hora sentia uma força e tranquilidade imóveis e ao mesmo tempo selvagens. Sentia meus caninos grandes, sentia força nos músculos, nos dedos, nas pernas, as costas flexíveis. Uma ótima forma física e vigor. Até um certo orgulho. Entendi que isso era se tornar o Jaguar, o animal sagrado do povo Chavin, que era associado ao San Pedro.

Entendi que então o cacto abre seu coração, depois se torna uma coisa só com você, então você se torna lagarto, que é uma expressão de si, e depois você se torna jaguar, que é sua forma poderosa.

Senti uma enorme reverência pelo Jaguar e sua presença musculosa e calma.

Quando começou a tocar a outra banda, Spoon, não estávamos mais sentados, mas sim em pé. Minha esposa estava brava com um casal que havia ficado em nossa frente. Tava quase batendo numa mulher, mostrando o muque e o escambau. Vai ver o Jaguar trabalhou ela de uma forma diferente, hehe. Eu apenas falava para ela ficar calma. Quando levantamos esse casal ficou ao nosso lado e eu me sentia bem como o felino, enxergando tudo no escuro, prestando atenção em tudo e pronto para defender território se fosse preciso.

Enquanto a banda tocava várias canções interessantes via as pessoas na pista, se esbarrando entre si com copos de cerveja de 12 reais e sua estética hipster. Todos procurando ser autênticos, usando roupas autênticas, com ideias autênticas, piercings e tatuagens autênticas, barbas autênticas, camisas xadrez autênticas, cabelos pintados e juventude autêntico, como se vivendo numa propaganda de smartphone.

De alguma forma me sentia superior a isso tudo. Seja este um sentimento escroto ou não, me sentia sim superior por conseguir ter um certo distanciamento de tudo que estava acontecendo e observar com a frieza de um predador.

Mas na verdade não sei se existe qualquer tipo ridículo de superioridade em ficar distante das paixões e da necessidade de afirmar dessa forma. Talvez isso seja apenas uma incapacidade de se envolver no mundo, na sociedade, e essa incapacidade é equilibrada com esse sentimentozinho idiota de ser “superior” e estar acima dessas merdas.

Bem, seja como for, foda-se isso.

0h30

Quando começou a tocar a principal banda do festival, “Belle & Sebastian”, que é quem minha esposa queria mesmo ver, meus ouvidos estavam bem alterados. Não sei se devido ao cacto ou devido ao volume alto do som, mas ouvia zumbidos muito fortes.

O volume alto me parecia não combinar muito bem com a banda, que em geral toca canções tranquilas…

Mas foi muito legal ver os caras no palco, suas performances, etc, e via que minha esposa estava bem feliz e isso me fazia sentir bem também.

Pensei muito sobre nossa relação. Apesar das tretas entre nós, tinha a sensação que eu não devia abandonar o relacionamento, como tenho pensado de um tempo pra cá. Devia cuidar, proteger, mesmo que algumas vezes não senta reciprocidade em certas questões. Não devia levar as coisas pelo lado do que é ou não justo.

Mas ainda não tenho certeza sobre isso e acho que não cheguei a uma conclusão sobre o assunto.

1h30 (2h30 já no horário de verão)

Quando acabou o show ainda estava bem alterado. Fomos seguindo pela saída, tropeçando nas pessoas cheias de estilo e autenticidade e cheios de desejos forjados por profissionais de marketing.

Chegamos no carro e o silêncio dentro do veículo era confortável. Percebia que ainda estava extremamente alterado, mas teria que dirigir, pegar a marginal, ir pra casa… se é assim, então vambora na nave espacial!!

Manobrei o carro e entrei na pista, flutuando.

O pensamento estava bem consciente, estava bem esperto, mas meus olhos não ajudavam. As pupilas dilatadas embaçava demais a pista, as luzes, as placas de sinalização… Fui seguindo dirigindo em 50/60 por hora, na pista da direita, com bastante cautela. As ruas pareciam bem estranhas, diferentes, e vira e mexe tinha a sensação de estar em uma estrada diferente… vira e mexe via luzes cruzarem o céu nublado.

Sei que é irresponsável, é errado, etc. Mas no final deu tudo certo e chegamos bem em casa. E lá fiquei um pouco com minhas gatas, filhotinhas do grande Jaguar, e depois fui deitar.

Com os olhos fechados tinha muitas visões. As visões eram pixeladas, pareciam bordados, quadriculados e com cores de grande contraste. Como construções de Lego. As visões de forma geral tinham sempre essa qualidade geométrica, com cada forma bem distinta, bem individual. De olhos fechados também acariciava os cabelos da esposa e a sensação tátil também era quadriculada, com os fios parecendo distintos entre si. As coisas não eram misturadas e sim conectadas, mas com suas qualidades individuais sempre preservadas. Era um mundo muito mais digital do que analógico, com 0 e 1 sempre distintos, cada coisinha em seu quadradinho.

Em certo momento vi um passado remoto. Uma mulher com a pele mais ou menos escura era sacrificada. Um corte na parte de trás de seu pescoço e o sangue preenchendo sulcos em estruturas de pedras. Acho que eram assim os antigos sacrifícios que eram feitos às divindades.

Via muitas coisas mortas. A vida se vai e tudo que fica é a geometria. As formas. A carne e o sangue perecem no final.

Havia um sentimento de tristeza devido a essa nossa condição mortal, transitória. O fato de que todos vamos morrer um dia me deixava um pouco triste.

“O Jaguar se alimenta de carne” – é o que eu pensava.

Foi muito difícil dormir. As vezes sentia frio, em outras sentia calor. Às visões não cessavam.

Em algum momento finalmente dormi.

Dia seguinte ainda me sentia alterado, mesmo depois de mais de 12 horas de força. Sentia também uma certa fraqueza. Acho que faltou uma alimentação mais consistente no pós-trip. A cabeça também doía bastante. Parecia algo como uma ressaca alcoólica.

Só me senti 100% novamente depois de umas 18h, quando fiz uma refeição com muita carne e batata cozida.

O Jaguar tem fome!

Com certeza essa foi uma das experiências mais interessantes que já tive. Duração enorme, intensidade incrível. Os pedritos são muito poderosos e finalmente me mostraram sua verdadeira força. Antes achava que San Pedro era apenas amigável, apenas trabalhava o coração, mas agora vi sua verdadeira natureza selvagem, carnívora, gigantesca.

CAPÍTULO 31 – MESCALITO, FOGO E CHUVA

Segunda-Feira às 10:27.
Neste fim de semana participei de uma nova cerimônia de plantas de poder, neste caso o peiote, e desta vez baseada na tradição da américa do norte, da igreja nativa americana.
Minha irmã, que nunca alterou o estado de consciência com nenhuma planta ou substância, vinha falando comigo sobre o interesse em participar de alguma coisa desse tipo e resolvi convidá-la para ir comigo neste trabalho.
As últimas cerimônias que tenho participado tem sido antecedidas por sonhos e dessa vez ocorreu o mesmo… uma semana antes do trabalho sonhei com um mescalito caricatural, alto e com cabeça de cebola. Eu dormia e ele ficava por ali velando o sono.
No dia da cerimônia fomos lá e estava muito cheia. Muita gente participando.
O peiote se apresentou como uma planta muito interessante, me lembrou um pouco os cogumelos, mas de uma forma mais constante. Achei bastante diferente do wachuma. Tive algumas visões e insights muito positivos. Só acho que a experiência foi muito prejudicada por fatores externos. O rigor da cerimônia e os vários momentos em que ela se “quebrou” me afetaram. E houve muito cansaço, igual no sonho, em que mescalito estava lá mas eu dormia. O sonho me veio em mente na hora e entendi que então era assim que devia ser. Uma cerimônia difícil, ao ar livre com fogueira e chuva durante a madrugada.
Me senti bastante fraco. E apesar do sol, do calor e do vigor do cacto, me senti incomodado contanto o tempo para que aquilo acabasse logo. Foi uma lição de humildade em certo sentido. Através de sonhos e acontecimentos tenho notado uma inflação em mim mesmo nas últimas semanas e aí vem o universo a compensar, me detonando. É o que chamam de peia, talvez. Nada mais que uma compensação do universo para conter a inflação do indivíduo. Tenho treinado duro o corpo, a mente, o espírito e ainda assim me vi fraquinho ali com o peiote.
Minha irmã, por outro lado, que é bem mais nova que eu e nunca tinha tomado nada, se apresentava com uma força descomunal. E eu via ali minha relação com ela. Não era ela minha irmãzinha, mas era eu seu “irmãozinho”. Ela é grandona. E sentia como se ela me protegesse. Nossa relação sempre foi assim. Ela cuidando de mim. E o propósito da cerimônia era exatamente “melhorar as relações”. Um propósito muito profundo, que envolve muitos tipos de relacionamento: relacionamento com si próprio, relacionamento social, relacionamento com família, relacionamento com a vida, enfim… se o propósito da cerimônia era “melhorar as relações”, então, muito disso estava sendo trabalhado em mim, de um jeito cansativo, mas consistente.
A cerimônia ao meu modo de ver ficou quebrada e incompleta. Na minha forma de ver muitas coisas “minaram” o poder centralizador da cerimônia: a quantidade de pessoas fez com que o círculo tivesse que se afastar da fogueira, saindo do “ponto ideal”. Um cara sumiu no meio do trabalho, a chuva, que apesar de sagrada e agradável, acabava indo “contra” o fogo. Quando vi isso lembrei da parte da manhã, enquanto ainda estava em casa e estava pegando fogo novamente em uma mata perto da minha casa. Foi um rapaz lá com uma mangueira apagar e na hora pensei se aquilo não era algum tipo de agouro… talvez tenha sido. Também havia a barreira da linguagem, onde o condutor da cerimônia não falava português e prejudicava a fluidez.
Mas era assim que tinha que ser dessa vez. E era bonito de ver as pessoas lá firmes aguentado o frio, o cansaço e a chuva. Eu é que tava fraco e deixando essas coisas externas me afetarem.
Quando finalizou a cerimônia, conversei com algumas pessoas. Em geral me sinto meio estranho com o pós-cerimônia, todo mundo se abraçando e tudo mais, mas houve muita empatia com algumas pessoas e foi muito bom estreitar algumas relações. Conversei bastante com minha irmã e fiquei muito feliz em perceber que ela aproveitou bem a cerimônia e que encontrou o que estava buscando.
Para mim ficaram muitos aprendizados. E também o desejo de fazer um novo trabalho mais intenso com mescalina, mas desvinculado de grupos, para conseguir entender melhor a planta em si, com a mente social mais afastada. Experiências em grupo e solitárias (ou em grupos pequenos e íntimos) são muito diferentes em cada uma se aprende de uma forma. Nas experiências em grupo não é só a planta que ensina, mas o formato da cerimônia tem muito ensinamento codificado em seu desenho. E também é necessário um esforço pessoal para se encaixar neste desenho. A experiência pessoal é mais difícil em alguns pontos, porque você precisa lidar sozinho com as turbulências do espírito, e também, se não tiver um propósito e intenção sincera, pode degradar a experiência e não aprender nada, se é que realmente é possível alguma coisa assim… mas por outro lado não há fatores externos. Apenas fatores internos.
Nestes últimos meses do ano tenho aprendido muita coisa e sou muito grato a Deus, o universo, o cosmo ou seja lá o que for, que tem me proporcionado essas oportunidades.

O Reizinho Ranzinza

Em um país bastante distante tinha um reizinho que não ligava pra ninguém. Ele maltratava seus empregados, não ajudava o povo do seu reino e até seus pais ele ofendia. Era um grosseirão e ninguém gostava dele.

Ele tinha um irmão que era o contrário dele. Era gentil, atencioso, humilde e todo mundo no reino dizia que ele era muito melhor que o irmão dele e que devia ser o verdadeiro reizão.

Quando o reizinho ficou sabendo que o irmão dele era mais querido, ele ficou bem bravo, mas aí viu que não adiantava nada e aí ele ficou triste.

Então ele começou a vigiar seu irmão para ver porque as pessoas gostavam mais dele.

Ele percebeu que seu irmão era gentil, demorava até se irritar e sempre estava a ajudar todo mundo. E ele começou a imitar.

No começo todos acharam estranho, mas então perceberam que ele estava se esforçando e começaram a ajudar ele.

Porque quando você ajuda, as árvores, plantas, animais e pessoas te ajudam de volta. Às vezes você ajuda uma planta e depois um animal te ajuda. Ou você ajuda uma pessoa e aí bem no dia que você quer ir passear faz um tempo bom.

E todos começaram a ajudar o reizinho que antes era mal e depois ficou bom.

E aí o reino dele ficou bem rico e grande. E o irmão dele, que era mais querido antes, mas agora era igual… ele virou um passarinho muito colorido que cantava uma música muito bonita.

 

Painera

Em lugar não muito longe daqui existe uma comunidade onde no meio dela tem uma árvore gigante e bastante velha.

Comunidade é um lugar onde as pessoas vivem junto, igual no condomínio.

Nessa comunidade que estou falando vivem umas pessoas que gostam de brincar em volta dessa árvore gigante.

O que eles não sabem é que a árvore gosta de brincar de volta, mas ela fica quietinha.

Teve um tempo há muito tempo atrás que tinha uns homens fortes e burros que maltratavam essa árvore. Mas ela não chorava não. Ao invés disso fez uns espinhos no casco dela. Aí que os homens fortes eram tão burros que não viam os espinhos que quando esmurravam a árvore machucava tudo a mão e voava sangue pra todo lado.

Cada vez que eles faziam isso machucava tanto a mão que tinha que cortar um pedaço de tão machucado que estava.

Foi assim até que eles ficaram sem braço.

Aí nesse tempo a árvore começou a crescer e ficar bem bonita, com folhas verdinhas que balançava quando batia o vento. Foi nesse tempo que a árvore aprendeu a dançar.

Depois de mais um tempão essa árvore percebeu que tinha um sol na cabeça dela. Quando ela olhou pra cima, começou a nascer flores nela. E tinha flor de toda cor. Amarelo, Azul, Vermelho, Branco. Só não tinha verde porque verde já era a cor da folha e ela não queria confundir quem olhasse.

A árvore ficou tão empolgada enquanto fazia flores que acabou deixando as suas folhas cairem. Mas isso acabou deixando ela ainda mais bonita.

E então nesse tempo todos os bichos e pessoas começaram a achar a árvore muito bonita e começaram a se juntar perto dela e brincar com ela, porque ela deixava todas as coisas mais bonitas com todas as cores e a sombra que ela dava.

Quando deu a hora de dormir, todos os bichos e pessoas foram para suas casas para descansar e aí a árvore também estava bem cansada… ela deixou cair suas flores, suas folhas e ficou sem nada, só descansando. Suas raízes foram para bem fundo da terra para pegar bastante água para ficar bem forte. Para que no dia seguinte ela tivesse bastante força para brincar tudo outra vez.